Manifesto Humanizabelém Sobre o Caso Adelir

Por Úrsula Ferro

No dia do aniversário dos 50 anos do Golpe Militar, que instaurou a ditadura no Brasil, mais um golpe foi dado. Desta vez, no corpo de uma mulher: Adelir Carmem Lemos de Góes. No município de Torres, no estado do Rio Grande do Sul, ela foi OBRIGADA a fazer uma cesárea por decisão judicial. Duas obstetras, Andreia Castro e Joana de Araújo, fizeram a denúncia ao Ministério Público. Adelir foi retirada de casa, à força, em pleno trabalho de parto, por 10 policiais armados, por ordem de mais uma mulher, a juíza Liniane Maria Mog da Silva. A ditadura da cesárea já era uma realidade no Brasil. No dia 1° de abril de 2014, essa ditadura decretou o seu AI-5.

Adelir

 Uma semana depois da pesquisa do IPEA divulgar que 65% dos entrevistados concordam total ou parcialmente que mulheres que usam roupas mostrando o corpo merecem ser atacadas e 58,5% concordam total ou parcialmente que “se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”, o caso Adelir é mais uma prova de como o machismo culpabiliza suas vítimas, oprime e faz com que as mulheres pareçam incapazes de tomarem conta de seus corpos – estes valorizados apenas como objeto e rotulados sistematicamente como defeituosos e incapazes, ainda mais quando falamos de nascimento.

 Incapazes de tomar decisões sobre seus corpos. Sobre seus filhos. Sobre sua vida: CENSURADAS.

Uma em cada quatro mulheres sofre violência no momento do nascimento de seus filhos, segundo pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo. A chamada Violência Obstétrica marca física e emocionalmente mães e bebês todos os dias. Somos rotineiramente TORTURADAS. Antes, sabíamos como algozes deste tipo de violência, técnicos, enfermeiros e médicos. No dia 1° de abril de 2014, guardemos a data, a Justiça Brasileira entrou para esse time. Adelir Carmem Lemos de Góes e sua bebê, suas vítimas. Guardemos os nomes.

 

Adelir já havia sido submetida a duas cesáreas, uma cirurgia de grande porte, em que as chances de morte materna é 3x maior do que em um parto normal e 2,5x maior para o bebê. Buscou uma doula, buscou informação e tomou a decisão de parir. Mas as obstetrasAndreia Castro e Joana de Araújo decidiram sequestrar sua decisão dizendo ao Ministério Público que por já estar com 42 semanas de gestação, por ter tido duas cesarianas anteriores, ela não poderia. Também alegaram que a bebê estava pélvica (sentada). Sabe-se, entretanto, que mulheres com duas ou mais cesáreas podem parir. Bebês em apresentação pélvica podem nascer por via vaginal, como dizem as diretrizes do Congresso Americano de Obstetras e Ginecologistas, desde que esse seja o desejo da mulher.  Também não é obrigatória a interrupção da gravidez depois de 41 semanas, seguindo as mesmas diretrizes. É notório que as médicas Andreia e Joana não entendem de evidências científicas. A justiça nem de evidências e nem de justiça. E Adelir teve seu parto oficialmente ROUBADO.

A truculenta ação atropelou o direito da mulher a decidir sobre o seu corpo, a ter AUTONOMIA. Um “cale-se” para seus direitos reprodutivos e o pior: com as bênçãos do Estado. Mesmo com a indicação absoluta de cesárea, um indivíduo só pode ser submetido a um procedimento cirúrgico sem seu consentimento formal em condições de risco iminente de morte. O que não era o caso, já que, de acordo com relatos de sua doula, Stephany Hendz, o bebê estava se movimentando bem, com frequência cardíaca tranquilizadora e a mãe em perfeito estado de saúde.

Quando veremos o Estado agindo com tanta rapidez e eficiência para calar médicos que indicam a retirada cirúrgica de bebês imaturos com 36, 37, 38 semanas?  O Código de Ética da categoria é contra, os órgãos de saúde apontam como má prática e os estudos mostram que a cesariana eletiva sem real indicação é um problema de saúde pública. Mesmo assim o Brasil é campeão mundial de cesáreas tendo mais de 90% dos nascimentos realizados cirurgicamente na rede privada e quase 55% na rede pública. O Estado não deveria se importar?

Não há possibilidade de anistia para esse caso. Estamos em luto por esse parto roubado, estamos em luto pelos direitos das mulheres violentados, estamos em luto pela autorização jurídica de uma VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA, estamos em luto por esse corpo cortado. Estamos em luto, mas continuaremos lutando.

 Cesárea forçada protesto 010

Movimento de Humanização do Parto e do Nascimento do Pará

HumanizaBelém

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Publicado em abril 2, 2014, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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